Entre a vida e a morte


Parada em frente ao corpo estendido no chão, escorregadio e intângível, a Vida assistia paralisada com olhos tristes a cena, já tão corriqueira.
- Não sejas tola! - sussurou a morte no seu pé do ouvido, emergindo das sombras do quarto- Não vês que não há nele nenhum resquício de ti e que foi por te negar que escolheu esse fim?
A vida num suspiro áspero, deu de ombros e como se não escutasse nada continuou a fitar o jovem de pulsos abertos, com o mesmo semblante, sem sequer esboçar uma reação.
- Se faz de propaganda, infesta os rádios e as TVs para isso?-Indaga a morte.- Bem faço eu, que limpo toda a podridão humana, ganho o meu sem grande esforço e sem nenhum gasto.
- Te enganas se pensas que vim reaver o que já foi perdido ou suplicar o que não pode ser obtido.- Retruca a Vida, dirigindo seu olhar frio e apático para suas próprias mãos- O que vês aqui, ó amiga infeliz?-Pergunta para a Morte.
Desconfiada, a Morte analisa bem antes de dar qualquer resposta.
- Não te aflijas - completa a Vida - não vês que minhas mãos estão limpas?
- Sim. Vejo e logo posso concluir que não há nada a se ver. -Responde a Morte, cheia de si.
- Quão ínfima é a tua credulidade na raça humana e em mim. Eu não sou nada para eles senão uma opção e tu, pobre coitada, não é nada senão obrigação. Não carrego em mim cicatrizes de alma, nem lama em minhas mãos e vim até aqui tomar de volta o que dei à esse moribundo, nada é de graça, bem sabes disso!
Perplexa perante a resposta regurgitada pela Vida, a Morte se cala e tenta limpar suas mãos sujas na própria roupa.
- Tu se escondes por puro capricho e teu salário é indigno, se apossas do que outrora foi meu e nem demonstra respeito, que afronta!- Se volta novamente, a Vida, para o calo no chão, sujo de borrões vermelhos e diz:
- Leva teu encosto daqui, dele nada mais quero e tu, alma nefasta, dê-se por satisfeita.
Com uma risada irônica a morte puxa com seus dedos longos e sombrios a alma do rapaz e fala quase como se contasse uma piada:
- Não te esqueças que um dia eu também irei te buscar e que essa lama em minha pele nada mais é que a sobra do que é teu e que um dia será a ti própria. E sim, incredula sou mas não obstante disso sou também a prova do teu fracasso.


2 Comentários:

Jéssica A. disse...

Já disse o quanto achei bem escrito o texto, neh amor?
O quanto vc capricha quando pensa e passa pro papel.
Tô orgulhosa, é um texto excelente!

parabéns!
TEAMOAMOAMOAMO

Beijos!

Rô Rezende disse...

Oi, moço...eu só modifico os templates mesmo (minima). Não os crio do zero, e nunca me dediquei a aprender os códigos do blogger (para cría-los. O que sei é o básico de webdesign mesmo.

Desculpe não poder ajudar!

O texto é muito bom! Acho que nunca tinha lido nada com essa visão e, tudo o mais. Mas acho que a morte a vida não são inimigas assim, elas se completam. Se bem que sempre vi a Morte como um ser, mas nunca vi a Vida assim. Blah...reavaliando conceitos!